quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Douro, o relatório da vindima 2017



Quinta da Gricha, Ervedosa do Douro (Churchill's)


    Um ano muito quente e seco em que a vindima foi antecipada para datas de que não há memória no Douro.



    "É o clima que dita os vinhos do mundo", "a influência do clima do ano é marcante para a qualidade da vindima", nas palavras de António Magalhães, responsável de viticultura da Fladgate Partnership. Os factores meteorológicos ao longo do ano têm uma influência directa no desenvolvimento, produção e qualidade das uvas, particularmente decisiva nos últimos meses de maturação. E compreender o ano vitícola é também essêncial para compreender os vinhos que nascem em cada ano.



    Na realidade, se tivéssemos que definir numa frase o ano vitícola que agora acaba de terminar, seria um ano extremamente quente e seco e uma vindima muito precoce.

    Vejamos então um pouco mais em detalhe os principais momentos e o comportamento climático ao longo do ano.
    O Inverno foi seco e sem chuva. Registou-se um volume de precipitação superior ao normal, mas apenas no mês de Novembro de 2016, porque nos meses seguintes houve um decréscimo muito acentuado no volume da precipitação relativamente aos valores normais para a região, em números, aproximadamente entre 50 a 80 % menos em Dezembro de 2016 e entre 60 a 70% menos em Janeiro de 2017.

    O início da Primavera veio confirmar um inverno muito seco, bastante mais seco do que é habitual e estas condições mantiveram-se nos meses que se seguiram. Na realidade, o despertar das vinhas, na Primavera (que se mantêm com um metabolismo minímo durante todo o inverno), ocorreu em condições de tempo seco, com muito pouca chuva.

    Em Março, os níveis de precipitação foram cerca de metade do que é habitual e em Abril quase não houve registo de chuva (de facto, o mês de Abril foi o mais seco desde que existem registos, desde 1931, em que os níveis de precipitação foram inferiores entre 72 a 96% aos valores normais), mas agora também com um aumento considerável das temperaturas médias logo a partir do mês de Fevereiro e com ondas de calor nos meses de Abril, Maio e Junho. De referir que em Maio se registou alguma instabilidade meteorológica, aguaceiros e trovoadas, que coincidiu com a fase da floração(2) da videira.

    O início do Verão continuou com temperaturas muito altas e com vários dias seguidos de muito calor. O mês de Junho foi seco, com muito calor a partir de meados do mêse com temperaturas de cerca de 40ºC no Peso da Régua, Pinhão, São João da Pesqueira e Vila Nova de Foz Côa. Em Julho registaram-se chuvas fortes e queda de granizo, que provocou estragos localizados nas vinhas em Sabrosa, Alijó, Mesão Frio, Vila Real, Santa Marta de Penaguião e Vila Pouca de Aguiar. Uma tempestade de Verão em que o mau tempo provocou bastantes estragos nas vinhas, com algumas perdas consideráveis nos locais mais atingidos.

    Ás condições gerais de ausência de água e calor, que se mantiveram, acrescente-se ainda os níveis de radiação bastante altos.
    Por outro lado, no capítulo das doenças da vinha, o lado positivo das condições climatéricas descritas até agora, foi o de não favorecerem a ocorrência de doenças na vinha (principalmente o oídio e o míldio), com muito fraca incidência ou mesmo vinhas sem doenças e com uvas sãs.

    Consideremos agora a vinha, houve um défice hídrico logo no início do ciclo vegetativo e stress hídrico durante toda a Primavera e depois até uma situação de défice hídrico (térmico e luminoso) severo em meados de Agosto, que se prolongou até à vindima. Claro que, nestas situações, é muito importante considerar a localização das vinhas, uma vez que as vinhas que se localizam em parcelas ou terrenos mais secos (nas sub-regiões do Cima Corgo e Douro Superior), em cotas mais baixas ou mais expostas à radiação, ou ainda as vinhas mais jovens, passaram por uma situação mais crítica e sofreram mais intensamente.

    Estas condições tiveram como consequência, um avanço de todas as fases do ciclo vegetativo da vinha, assim, o abrolhamento(1) ocorreu na primeira quinzena de Março, a floração(2), inicou-se em finais de Abril e até final de Maio, com a formação dos cachos já visível no final de Maio, o "pintor"(3) iniciou-se em finais de Junho.

    A continuação do tempo quente durante o período da maturação provocou um avanço no ciclo vegetativo da vinha, um rápido amadurecimento das uvas, um acelerado aumento da concentração de açúcar em pouco tempo e mesmo a desidratação dos cachos (com um aumento da percentagem dos bagos secos e desidratados), o que levou à decisão tomada por muitos produtores de antecipar a vindima em cerca de 3 semanas para o que é habitual na região, uma das vindimas mais precoces em muitos anos.

    Do início de Agosto até meados do mês, a vindima das uvas brancas, as primeiras a ser vindimadas.
    O tempo continuou extremamente seco e com temperaturas altas durante todo o tempo das vindimas, sem registo de precipitação, na realidade, o mês de Setembro foi o mais seco dos últimos 87 anos. A área de seca severa e extrema foi alargada.

    Em meados de Setembro até ao fina da terceira semana, a vindima estava praticamente concluída em muitas Quintas. Quase que se poderia dizer que as vindimas estavam terminadas na data em que habitualmente estariam a começar.

    De assinalar também, os diferentes graus de maturação dos cachos e das uvas, de parcela para parcela e de vinha para vinha, o que obrigou a mais trabalho e a mais pormenor na apanha da uva e a tomar decisões, sempre que possível, de acordo com os níveis de maturação e as parcelas a vindimar.

    Houve uma redução geral da produção, nas três sub-regiões do Douro em relação à vindima de 2016, de aproximadamente 21% no Baixo Corgo, 27% no Cima Corgo e cerca de 49% no Douro Superior. Importante ainda, a relação Kg/L que é menor em cerca de 20% do que os valores normais.

    Por último, em termos gerais, a antecipação da vindima deu origem a mostos com graduações alcoólicas muito altas, de muito boa qualidade, com bons indícios de côr, estrutura e concentração.

Notas:
(1) O abrolhamento: marca o início do ciclo vegetativo da videira, com o aparecimento dos rebentos.
(2) A floração: é um período que dura cerca de semana e meia, importante e crítico para a definição da colheita, uma vez que, se houver chuva neste período, as flores podem cair ou o polén pode ser lavado dos estames e das flores, não se dá a fecundação e a flôr não vinga em fruto (desavinho) e a colheita é afectada.
(3) O "pintor": marca o inicio da maturação em que as uvas começam a mudar de côr. Côr tinta nas películas dos bagos tintos e a película translúcida nas castas brancas.




©HSM







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